A Mostra Cultural de Manguinhos

Mostra Cultural de Manguinhos

O Complexo de Manguinhos conta com a presença de diversos artistas, produtores e agitadores culturais, o que é realidade também encontrável em inúmeras favelas e regiões periféricas da cidade. Em Manguinhos, entretanto, tais atores culturais passam ainda mais despercebidos, vide a permanente citação do bairro e das adjacências em noticiários ligados à violência e, claro, também à condição de estigmas preconceituosos comumente agregados a favelas, a piorar quando estas se localizam no subúrbio da cidade.

Tais marcas simbólicas são importantes de serem destacadas e analisadas com cuidado. Pois tais estigmas da violência associada aos territórios empobrecidos da cidade impedem a circulação dos moradores da cidade por todos seus bairros. É a criminalização da pobreza associada que, embarcando na cultura do medo e do preconceito, criam os invisíveis mas muito perceptíceis “muros ao redor das favelas”. No intuito de combater tais invisibilidades sobre quem vive em territórios de exceção, o Projeto CAIS (ICICT/FIOCRUZ), o Ecomuseu de Manguinhos (Redeccap) e o Coletivo de Integração Artística de Benfica, se reuniram para construir a Mostra Cultural de Manguinhos, apresentando o simplesmente o que de arte e cultura já está há muito tempo nas ruas, casas e espaços públicos do Complexo de Manguinhos.

Reconhecendo que trata-se de um primeiro mapeamento dos artistas e coletivos de cultura presentes no território, a Mostra Cultural que servir de ponto de encontro. E nisso, colaborar para que a convergência entre os fazeres artísticos e as dinâmicas cotidianas – que, por onde perpassam inúmeros signos e sentidos – façam valer identidades, outridades, e, enfim resgatar laços mais vivos e solidários entre o mundo do asfalto e o universo da favela.

Desta feita, a Mostra Cultural de Manguinhos se dispõe a servir mais como um 3×4 do que como um painel da diversidade artística e cultural do Complexo. Fosse um painel, seria porque reconhecemos que teremos reunido a maior parte ou os mais representativos artistas do território. Nem pretendemos a maior parte (pois ainda falta trocar com centros religiosos, com produtores dos bailes funk, com diretoria das escola de samba e escolas: atores coletivos já promotores de arte e cultura de longa data), e tampouco podemos considerar tal ou qual sujeito tenha na sua arte maior ou menor capacidade de representar Manguinhos. Simplesmente convidamos artistas a se reunirem e pra isso acessamos as redes já existentes entre eles. Disso descobrimos a presença de coletivos de hip hop, dança de rua e grafitagem (sem contar o pessoal do skate), todos interligados uns com os outros, quase todos da mesma faixa etária.

Também foi gratificante trocar com quem já mobilizava poetas ao redor de saraus, e daí poder contar com mais essa rede estabelecida há dois anos. Os artistas avulsos, muitos se aproximaram da organização do evento pela cultura do boca a boca: “olham, tão organizando ali um festival, vai lá e fala com eles!..” E mais pessoas foram se aproximando. A partir daí,  já incluíamos na discussão coletiva como organizar a programação com o recém chegado. Muitas histórias se deram por caminhos similares aos supracitados. Mais importante é pensar em como se darão após a Mostra. E como serão os diálogos na própria, no dia 20, quando a experiência de compartilhar palco, de fazer fusão de sons e linguagens de arte, for desafio para aplicarmos práticas solidárias  de cooperação e engajamento comunitário.

Acreditamos que haverá muito debate proveniente da Mostra Cultural. Especialmente para o que seja uma arte territorializada com sotaque universal. Que seria esse sotaque?, talvez um modo de dizer que é mais detalhe a variedade de gêneros musicais (rock, samba, hip hop, mpb, funk e música de concerto) do que é de fato relevante o idioma (as palavras e as coisas) próprios de quem é cria e formulador daquele território. O que vale pra qualquer lugar do mundo, mas no caso de territórios que vivem sobre algum tipo de excepcionalidade – e no caso, não positiva – em relação a outros, essa característica se torna mais latente e mesmo potente de identidade coletiva e – por que não dizer? – de reivindicação cidadã. Estarão presentes também, profissionais da saúde que atuam no território, pensando arte e cultura para a promoção de qualidade de vida.

Filmes sobre Manguinhos – e produzidos em Manguinhos. Peças de teatro sobre Manguinhos – e produzidas em Manguinhos. Exposição sobre a história de Manguinhos – também oriunda de Manguinhos… Quando se produz um filme, uma peça ou uma exposição no território, não se produz naquele espaço físico apenas, outrossim se produz na relação com e entre as pessoas que formam o Complexo de Manguinhos. O mesmo se dá com o Sarau Poético, com o Ponto Solidário de Manguinhos, com o Varal Poético. É na autoria que identificamos aquilo que é próprio para diálogo com tudo mundo, desimportando sotaques, desimportando distâncias culturais. A autoria é o que permite a intersecção: as diferenças e as semelhanças que criam movimento de troca, de identificação do outro e reconhecimento das identidades (oxalá) em rica e constante mutação.

A Mostra Cultural de Manguinhos deve servir como essa fronteira aberta. Os artistas do território, os coletivos de agitação cultural, se colocam na rua esperando dela a circulação sem barreiras. O público de Manguinhos é toda a cidade, que contém todo Manguinhos, que deve dispor mais de toda a cidade – tendo nisso seu campo de luta, o direito a ela.

Este antimanifesto, por fim, trata de uma disposição a produzir um amálgama cultural no território para, daí sim, emergir o debate sobre a cultura de resistência, sobre como e o que queremos a partir de Manguinhos.

Projeto CAIS
CIAB
Ecomuseu de Manguinhos

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A Mostra conta ainda com a parceria do Projeto TEIAS/FIOCRUZ, do Conselho Comunitário de Manguinhos e com o apoio institucional da Biblioteca Parque de Manguinhos.

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Um pensamento sobre “A Mostra Cultural de Manguinhos

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